Economistas divergem sobre alta das reservas em dólar
As reservas internacionais brasileiras alcançaram US$ 251,225 bilhões até o dia 11 de junho, marca inédita para as contas públicas. Apesar de representar um importante "colchão" para o País enfrentar crises mundiais, como revelou a última, em 2008, o valor é muito alto para que as contas públicas não sejam afetadas.Segundo o economista Frederico Araújo Turolla, professor do Mestrado em Gestão Internacional da ESPM e sócio da Pezco Consultoria, se, por um lado, as reservas internacionais protegem o País do cenário externo, de outro, elas aumentam a dívida pública bruta interna. "É como se o governo criasse um ativo [recursos para lidar com crises internacionais] e um passivo [aumento do endividamento bruto interno], que acaba sobrando para o contribuinte ter que arcar", entende. "O fluxo de dólar deve ser convertido em reais, ocorrendo excesso de moeda. Para não ter que diminuir a taxa [básica de juros] Selic e assim, evitar pressão inflacionária na economia, o governo tem que fazer operações compromissadas, que possuem um alto risco, porque são dívidas com prazos curtos, o que piora a composição do título", acrescenta o economista.
Para ele, o nível ideal das reservas em dólar do Brasil deve ser inferior ao patamar de US$ 250 bilhões. Entretanto, ele afirma que não é possível apontar um número exato.
Já o professor do Mackenzie, Fernando Ribeiro, entende que "quanto mais reservas o País tiver melhor". "É um ótimo patamar [US$ 252 bilhões] e se for maior que isso melhor. Gera um grau de liberdade para que o governo consiga lidar com problemas internacionais. Além de que acalma os investidores que por acaso quiseram retirar seus recursos do Brasil para outros países. Ele prefere fazer essa transação em moeda forte, que é caso do dólar."
Ribeiro discorda de que altas reservas elevam a dívida bruta interna. "O governo trata suas contas públicas por meio do seu endividamento líquido", diz.
Turolla comenta que o alto valor de reservas aprecia o câmbio, de modo que o Real fica mais valorizado que o dólar, o que afeta diretamente as vendas das empresas exportadoras. Este cenário acaba piorando os resultados da balança comercial brasileira que registrou, na segunda semana de junho, déficit de US$ 166 milhões, com as importações superando as exportações.
Para o professor do Mackenzie, alto acúmulo de dólares é um meio do Banco Central (BC) controlar o câmbio. "O preço do dólar é definido pelo fluxo de entrada e saída, se o BC quiser vender dólar ele pode fazer isso sem mexer no câmbio, já que tem uma reserva alta. Ele só altera a taxa de câmbio se assim decidir", avalia.
Fluxo cambial
De acordo com informações divulgadas ontem pelo BC, o fluxo de dólares registrou saída líquida de US$ 1,776 bilhão no acumulado de junho, deste ano, até o dia 11. Na primeira semana de junho, a saída somava US$ 267 milhões.
A autoridade monetária informou que o resultado se deve ao segmento financeiro, que registrou fluxo negativo de US$ 978 milhões nas duas primeiras semanas do mês. O valor foi gerado pelas saídas de US$ 9,476 bilhões, valor superior aos US$ 8,497 bilhões que ingressaram no mesmo período. Na primeira semana do mês, a conta financeira, que registra transferências para compra e venda de ações, títulos de renda fixa, investimento produtivo e remessa de lucros, entre outras operações, havia amargado saída de US$ 170 milhões.
No segmento comercial, o mês acumula saída líquida de US$ 798 milhões, fruto de importações de US$ 5,605 bilhões e exportações de US$ 4,807 bilhões. Na primeira semana de junho, o comércio exterior havia registrado saída de US$ 96 milhões. No acumulado do ano, o Brasil registra ingresso líquido de US$ 5,867 bilhões, sendo que o segmento financeiro acumula US$ 4,664 bilhões e o comércio exterior registra ingresso de US$ 1,203 bilhão.
Acumulado
Ainda de acordo com o BC, as reservas internacionais brasileiras somam US$ 1,047 bilhão até o dia 11 de junho, pelas compras de dólar realizadas diariamente pela autoridade monetária. O número mostra que há uma desaceleração no ritmo das intervenções do BC, que ficaram na média diária de US$ 130,9 milhões no período. O valor é 34% inferior ao registrado em todo o mês de maio (média diária de US$ 198,6 milhões). No acumulado de 2010 até o período analisado, as compras de dólar realizadas diariamente pelo BC somaram US$ 13,194 bilhões às reservas internacionais do País.


